Pular para o conteúdo principal
Moldes para Fundição

Ângulo de saída: quanto usar para a peça desmoldar sem defeito

por Márcio Baumer

O ângulo de saída na fundição em areia fica, na maioria dos casos, entre cerca de 1° e 3°: menos nas superfícies externas e nos modelos de metal ou resina, mais nas superfícies internas e nos modelos de madeira. É a leve inclinação que se dá às paredes verticais do modelo para ele sair do molde de areia sem arrastar nem rasgar a cavidade.

A pergunta certa não é "preciso de ângulo de saída?". Todo modelo com parede vertical precisa. A pergunta é "quanto", e a resposta muda com três coisas: a altura da parede, o material do modelo e o fato de a superfície ser interna ou externa.

Errar esse ângulo para menos é uma das causas mais silenciosas de refugo: o molde parece perfeito, mas se rompe na hora de tirar o modelo, e o defeito só aparece depois, na peça fundida.

O que é o ângulo de saída, na prática

Ângulo de saída, também chamado de ângulo de desmoldagem ou saída de desmoldagem, é a conicidade aplicada às faces do modelo paralelas à direção em que ele é retirado da areia. Em vez de uma parede a 90° com o plano de partição, o modelo ganha uma leve abertura: mais estreito no topo, mais largo na base.

Sem essa conicidade, a parede do modelo raspa a areia compactada ao ser puxada. Com ela, o modelo se solta com uma folga que cresce a cada milímetro de subida, e a areia fica intacta. O oposto do ângulo de saída é a contra-saída: uma parede que fecha sobre si mesma e fica mais larga no topo. Essa geometria prende o modelo na areia e não é aceita, porque impediria a extração. Quando a peça exige esse recorte, ele se resolve com macho, peça solta ou mudança no projeto, nunca com uma parede em contra-saída.

Quanto usar: a faixa de referência

Para a fundição em areia, a referência usual do setor é de 1° a 3° nas superfícies externas, com o mínimo prático em torno de 0,5° em modelo de metal bem acabado e moldagem em máquina. Boa parte do projeto trabalha numa faixa de compromisso, entre 1,5° e 2°, quando não há uma restrição dimensional que peça menos.

Há duas formas de expressar a mesma coisa. Em graus, é o ângulo da parede. Em medida linear, alguns modeladores falam em milímetros por metro de altura: as referências de projeto citam da ordem de 10 a 25 mm por metro nas superfícies externas e de 40 a 65 mm por metro nas internas. As duas formas convivem no setor como ordens de grandeza, não como conversão exata uma da outra. O que decide é a face não arrastar a areia na extração.

A saída diminui na parede alta, e a madeira pede mais

Dois fatores mexem no número: a altura da parede do modelo e o material de que ele é feito. Quanto mais alta a parede, menor o ângulo em graus, porque um grau a mais numa parede alta afastaria demais a base e engordaria a peça. E o modelo de madeira pede mais saída que o de metal ou resina, porque a superfície mais lisa e dura do metal solta melhor da areia.

A tabela abaixo usa dados de referência do setor internacional de fundição em areia (Cast Metals Institute), separando modelo de madeira e modelo de metal ou plástico, por altura de parede e por tipo de superfície.

Altura da parede do modeloMadeira (externo / interno)Metal ou resina (externo / interno)
Até ~25 mm3,0° / 3,0°1,5° / 3,0°
25 a 50 mm1,5° / 2,5°1,0° / 2,0°
50 a 100 mm1,0° / 1,5°0,75° / 1,0°
100 a 200 mm0,75° / 1,0°0,5° / 1,0°
200 a 800 mm0,5° / 1,0°0,5° / 0,75°

O padrão que a tabela revela: quanto mais alta a parede, menor o ângulo; e, em quase toda a faixa, a madeira precisa de mais saída que o metal. Por isso a escolha do material do modelo não muda só o custo e a durabilidade, muda também a geometria do ferramental. O critério de material por volume de produção é o passo anterior a este, e está em tipos de moldes para fundição.

No caso específico da madeira, que pede mais conicidade e ainda sente umidade e desgaste, vale entender até onde ela compensa antes de fechar o modelo. É o que detalha o guia sobre quando usar molde de madeira.

Superfície interna pede mais saída que a externa

Uma parede interna (um furo, um bolsão, uma cavidade fechada) precisa de mais ângulo de saída que uma parede externa da mesma altura. O motivo é físico: na extração, a areia interna fica cercada e presa em volta do modelo, enquanto a superfície externa tende a se afastar dele. A face interna, para sair sem arrastar, precisa de mais conicidade.

A norma internacional que trata do assunto, a ISO 8062-4, formaliza essa diferença: ela define valor de saída externo e valor de saída interno como grandezas distintas do projeto da peça fundida. Na prática de bancada, a regra de bolso é que a saída interna fique da ordem do dobro da externa, embora o múltiplo exato varie com a geometria e com a fonte consultada.

Moldagem manual ou mecanizada: quem pede mais

O método de moldagem também entra na conta. A moldagem em máquina compacta a areia de forma padronizada, sempre igual, e retira o modelo num movimento controlado, então tolera menos ângulo de saída. A moldagem manual depende da mão do moldador, com compactação e extração menos uniformes, e por segurança trabalha com um pouco mais de saída.

Isso conecta direto com o tipo de ferramental. Na moldagem mecanizada de alta cadência, o alinhamento das duas metades e a saída consistente vêm da placa-modelo para fundição, projetada com a conicidade certa para o modelo se soltar milhares de vezes sem danificar a cavidade. Na moldagem manual, com modelo solto para fundição, é o ângulo de saída bem resolvido que garante que cada nova moldagem saia limpa, mesmo com o posicionamento feito a cada ciclo pelo operador.

O que acontece quando falta ângulo de saída

Ângulo de saída insuficiente é um defeito que nasce no modelo e só aparece na peça. A sequência é quase sempre a mesma:

  1. O modelo raspa a areia na extração. Sem conicidade suficiente, as paredes verticais esfregam na parede do molde ao serem puxadas.
  2. A areia rasga ou desmorona. O atrito arranca parte da cavidade, que sai grudada no modelo. A parede que deveria ficar lisa fica danificada.
  3. O metal preenche o dano. No vazamento, o metal líquido ocupa o rasgo e gera excesso de material e rebarba justamente onde a areia se soltou.
  4. A peça vem com inclusão de areia e mau acabamento. Os grãos arrastados viram inclusão de areia dentro ou na superfície da peça, um dos defeitos mais comuns de refugo na fundição em areia.

O detalhe cruel é que o molde parece bom a olho nu no início. O problema se acumula moldagem após moldagem, à medida que a cavidade vai se abrindo, e o refugo aparece disperso no lote, difícil de rastrear até a causa raiz, que é a geometria do modelo.

E quando sobra saída?

Passar do ponto também custa. Cada grau de saída a mais na parede externa adiciona metal na base da peça: muda a dimensão, aumenta o peso e cria material que depois precisa ser usinado e removido. Em peças que serão usinadas em cotas críticas, a prática comum é dar a saída necessária e deixar o sobremetal de usinagem para acertar a região crítica na dimensão final.

Ou seja, ângulo de saída não é "quanto mais, melhor". É o mínimo que garante a extração limpa, sem exagerar a ponto de virar peso morto e usinagem extra. Achar esse ponto é decisão de projeto do modelo, não de tentativa e erro no chão de fábrica.

Onde o ângulo de saída é definido: no projeto do modelo

O ângulo de saída se decide na hora de projetar o modelo, junto com a linha de partição, a régua de contração e o sobremetal. Definir a direção de extração e aplicar a conicidade certa em cada face é o que separa um ferramental que produz milhares de peças limpas de um que começa a gerar refugo na segunda dezena de moldagens.

Em paredes muito profundas, forçar um único ângulo grande engordaria demais a peça. A saída aí se resolve de outro jeito: com macho para formar o vazio interno, modelo bipartido, peças soltas que saem antes do corpo principal, ou o afrouxamento controlado do modelo na extração. Cada caminho tem seu custo, e a escolha faz parte do projeto de fundição.

Em Araquari (SC), ao lado do polo industrial de Joinville, a fabricante de modelos e ferramentais para fundição em Araquari projeta a saída de desmoldagem em cada face já no CAD, antes de usinar. Fazemos moldes para fundição em madeira, resina e alumínio para fundições de todo o Brasil, com base em modelação desde 1988 e fábrica ativa desde 2010, e a conicidade de cada modelo sai calibrada pelo material, pela altura da parede e pelo processo de moldagem da fundição destino.

Se a sua peça vai para moldagem mecanizada, o ângulo de saída precisa estar casado com o projeto da placa-modelo (match plate), para o modelo se soltar limpo em toda a série. Manda a foto da peça ou o desenho técnico com a altura das paredes e o processo de moldagem, que a gente indica a saída certa e o ferramental para produzir sem refugo.

Perguntas frequentes

Qual o ângulo de saída ideal na fundição em areia?

Não existe um número único. A referência do setor fica entre cerca de 1° e 3° nas superfícies externas, com o mínimo prático em torno de 0,5° em modelo de metal com moldagem em máquina. O valor exato depende da altura da parede, do material do modelo e de a superfície ser interna ou externa: paredes mais altas usam menos graus; superfícies internas e modelos de madeira usam mais.

Por que a superfície interna precisa de mais ângulo de saída?

Porque a areia interna fica cercada e presa em volta do modelo na hora da extração, enquanto a superfície externa tende a se afastar. A face interna precisa de mais conicidade para sair sem arrastar a areia. A norma ISO 8062-4 trata valor de saída interno e externo como grandezas distintas justamente por isso, e a regra de bancada aponta a saída interna da ordem do dobro da externa.

O que acontece se o modelo não tiver ângulo de saída suficiente?

As paredes verticais raspam e rasgam a areia na hora de retirar o modelo. A cavidade se danifica, o metal preenche o rasgo gerando rebarba e excesso de material, e os grãos arrastados viram inclusão de areia na peça. O resultado é refugo que aparece disperso no lote e é difícil de rastrear, porque o molde parecia bom a olho nu.

Modelo de madeira precisa de mais saída que o de alumínio?

Sim. A superfície mais lisa e dura do alumínio solta melhor da areia, então o modelo de metal tolera menos ângulo de saída que o de madeira na mesma altura de parede. Por isso a escolha do material do modelo muda também a geometria do ferramental, não só o custo e a durabilidade.

O ângulo de saída muda a dimensão da peça?

Muda, nas superfícies externas: cada grau de saída adiciona metal na base da parede, o que aumenta dimensão e peso. Em cotas críticas que serão usinadas, dá-se a saída necessária e deixa-se sobremetal de usinagem para acertar a dimensão final. Por isso o ângulo é calculado no projeto, não improvisado no chão de fábrica.

Vocês definem o ângulo de saída no projeto do modelo?

Sim. A MC Modelação calcula a saída de desmoldagem em cada face ainda no CAD, pelo material do modelo, pela altura das paredes e pelo processo de moldagem da fundição destino, antes de usinar. Em madeira, resina ou alumínio, o modelo sai com a conicidade certa para produzir sem arrastar areia.

Ficou com alguma dúvida sobre o seu projeto de fundição?

Falar no WhatsApp
Fale com a engenharia

Precisa de um molde ou ferramental?

Envie o desenho técnico ou descreva a peça. Indicamos o material e o ferramental certos para a sua fundição, com prazo e especificações.